Um suposto erro médico que teria deixado gazes cirúrgicas dentro do corpo de uma paciente após uma cirurgia na rede pública de saúde de Barra do Garças é alvo de uma ação judicial que tramita na 4ª Vara Cível do município. A autora, Maria Aparecida Alves de Oliveira, afirma que o procedimento foi realizado no Hospital Municipal Milton Pessoa Morbeck e que as consequências da falha se estenderam por anos, com dores constantes e graves complicações de saúde.
A ação, estimada em R$ 141 mil a título de dano moral, relata que a paciente passou por uma cirurgia de emergência em fevereiro de 2019, durante a gestão do ex-prefeito Roberto Farias, após sofrer um acidente quando retornava do trabalho. Durante o procedimento, gazes cirúrgicas teriam sido esquecidas em seu abdômen, falha que, conforme os autos, só foi descoberta anos depois.
Segundo o processo, o material cirúrgico permaneceu em seu organismo por cerca de seis anos, sendo identificado apenas em 2025, após a realização de exames mais detalhados.
A paciente relata que desde a cirurgia, passou a conviver com dores constantes e sintomas recorrentes, sem diagnóstico preciso. Em diversos atendimentos, os sinais foram atribuídos a problemas simples, o que teria retardado a identificação do problema. Apenas em 2025, após exames mais detalhados, foi constatada a presença de um corpo estranho no organismo, conhecido como gossipiboma.
Em entrevista à reportagem, Dona Maria relembrou o momento em que o quadro se agravou. “Eu estava no meu serviço e senti muita dor, comecei a vomitar e passei muito mal. Fui parar na UPA”, contou. Ela também relatou a dificuldade enfrentada até a confirmação do diagnóstico, após idas e vindas entre unidades de saúde e hipóteses clínicas equivocadas.
Com a descoberta, a paciente foi submetida a uma nova cirurgia para retirada do material. No entanto, o quadro evoluiu com complicações graves, incluindo a necessidade de uso de bolsa de colostomia, internações em estado crítico e problemas renais. “Fiquei três meses chorando em cima de uma cama”, disse.
De acordo com a defesa, Maria Aparecida permaneceu cerca de seis anos convivendo com dores intensas, desconforto e sofrimento físico e psicológico. O processo também aponta que as sequelas comprometeram sua capacidade de trabalho, agravando sua situação financeira.
O advogado Edmundo Waschington afirmou que o caso representa uma falha grave e evitável. “Estamos buscando a responsabilização dos envolvidos e a reparação integral dos danos sofridos por ela”, destacou. Segundo ele, além da indenização, a ação também pleiteia o pagamento de pensão vitalícia, diante da redução da capacidade laboral da paciente.
Ryan Rocha, da equipe jurídica informou ainda que uma audiência de conciliação já foi designada, na tentativa de resolver o caso de forma mais célere. Para a defesa, o episódio evidencia o descumprimento de protocolos básicos de segurança médica, amplamente reconhecidos na prática hospitalar.
A ação está fundamentada na responsabilidade objetiva do Estado, prevista no artigo 37 da Constituição Federal, que estabelece o dever de indenizar danos causados por agentes públicos no exercício de suas funções.
A reportagem entrou em contato com a Procuradoria do Município de Barra do Garças e com o médico André Vilela, citado no processo, para comentar o caso, mas não houve retorno até o fechamento desta matéria.