Um tipo específico de exercício físico, chamado de treino intervalado de alta intensidade (HIIT), pode ser mais eficaz para melhorar a saúde dos vasos sanguíneos do que atividades moderadas contínuas em pessoas com doenças cardiovasculares. É o que mostra uma revisão científica que analisou dados de mais de 6,8 mil pacientes.
O estudo conclui que o exercício físico, de forma geral, melhora a função do endotélio (camada interna dos vasos sanguíneos), mas aponta que o HIIT apresenta os resultados mais consistentes e robustos.
O que o estudo analisou
A pesquisa reuniu 37 estudos clínicos, com um total de 80 grupos de intervenção, envolvendo adultos com:
- doença arterial coronariana
- insuficiência cardíaca crônica
Os cientistas compararam diferentes tipos de exercício:
- aeróbico moderado
- aeróbico intervalado de alta intensidade (HIIT)
- treino de força (resistido)
- treino combinado (aeróbico + força)
- além de grupos sem exercício
A principal medida avaliada foi a dilatação mediada por fluxo, indicador da capacidade dos vasos de se expandirem, um marcador importante de saúde cardiovascular.
Exercício melhora a função dos vasos, mas intensidade faz diferença
Os resultados mostraram que quase todas as modalidades de exercício melhoraram a função endotelial em comparação com a ausência de treino.
Os ganhos médios foram:
- exercício aeróbico moderado: +2,04%
- treino intervalado de alta intensidade: +3,47%
- treino combinado moderado: +2,71%
- treino combinado intenso: +8,25%
O treino de força isolado não apresentou melhora significativa.
Ao comparar diretamente os métodos, o HIIT superou o exercício moderado contínuo, reforçando que a intensidade do esforço influencia o benefício vascular.
O que acontece no corpo para que o exercício melhore a função dos vasos?
Durante o exercício, há aumento do fluxo sanguíneo, o que gera uma força de atrito do sangue na parede dos vasos sanguíneos, chamada de shear stress. Esse estímulo é fundamental, porque ativa a camada interna dos vasos, melhorando sua função.
A força do fluxo sanguíneo sobre as paredes dos vasos aumenta a liberação de óxido nítrico, uma substância produzida pelo endotélio que tem papel central na regulação dos vasos. Ele atua como um relaxante natural, promovendo a dilatação dos vasos.
Com maior capacidade de dilatação, os vasos têm melhor controle do tônus vascular e sofrem adaptações estruturais ao longo do tempo, explica o especialista em reabilitação cardiovascular e fisiologista da Comissão Científica do Instituto do Coração (InCor) Francis Souza.
“Além disso, a prática regular de exercício físico reduz processos inflamatórios e o estresse oxidativo, fatores que prejudicam a saúde vascular. O resultado é uma melhora global da função endotelial, considerada um dos principais marcadores de saúde cardiovascular”, acrescenta Souza.
Na prática, isso ajuda a restaurar o funcionamento do endotélio, que costuma estar prejudicado em pacientes com doenças cardíacas.
Treino combinado pode ter maior efeito, mas ainda há incertezas
O treino combinado de alta intensidade apresentou o maior efeito observado, mas os autores fazem um alerta: esse resultado se baseia em apenas um grupo de estudo.
Por isso, ainda não é possível afirmar com segurança que essa seja a melhor estratégia.
“São necessários ensaios clínicos para confirmar esse potencial”, destacam os pesquisadores.
Intervalos mais longos parecem ser melhores
A análise também sugere que, dentro do treino intervalado:
- intervalos mais longos de alta intensidade tendem a gerar mais benefício
- intervalos curtos podem reduzir esse efeito
Ainda assim, os dados não são conclusivos e precisam de mais estudos diretos.
Benefícios aparecem principalmente no endotélio
Outro achado importante é que o exercício melhora especificamente a função do endotélio, sem alterar significativamente a resposta da musculatura dos vasos.
Isso indica que:
- os efeitos são mais funcionais do que estruturais
- mudanças mais profundas nos vasos podem exigir mais tempo de treino
Musculação e exercício aeróbico podem ser considerados treinos moderados?
A classificação de intensidade do exercício não depende exclusivamente do tipo de exercício, explica Souza.
Tanto a musculação quanto o exercício aeróbico podem ser leves, moderados ou intensos, de acordo com a carga, o esforço e o condicionamento individual da pessoa.
- Na musculação, a intensidade costuma ser definida pela carga utilizada e pelo número de repetições.
- Treinos com cargas moderadas, realizados sem chegar à exaustão, geralmente são classificados como de intensidade moderada.
- Já no exercício aeróbico (como caminhada, corrida, bicicleta e dança, entre outros), a intensidade é frequentemente determinada pela frequência cardíaca ou pela percepção de esforço. Uma forma prática é o “teste da fala”.
- No exercício aeróbico de intensidade leve, a respiração permanece confortável e a pessoa consegue conversar normalmente.
- Na intensidade moderada, existe certo esforço para manter a conversa, mas ainda é possível falar frases completas, apesar da respiração mais acelerada.
- Já na intensidade alta, fica difícil falar frases completas, havendo necessidade de pausas para respirar.
- Idosos podem se beneficiar ainda mais
Os resultados indicam que pacientes mais velhos, que geralmente têm maior comprometimento vascular, podem apresentar ganhos ainda maiores com treinos intensos.
O estudo também aponta que o treino intervalado mantém eficácia independentemente do tipo de doença cardíaca.
O que muda na prática
Os autores defendem que os resultados devem influenciar a prescrição de exercícios na reabilitação cardíaca.
Hoje, o exercício moderado é o mais recomendado. Mas o estudo sugere que:
- treinos mais intensos podem trazer maior benefício
- o HIIT deve ser considerado como alternativa ou complemento
- programas podem começar com intensidade moderada e evoluir progressivamente
Entre todas as opções, o treino intervalado de alta intensidade se destacou como a estratégia mais eficaz para melhorar a saúde dos vasos.
A análise reforça que o exercício é essencial para pacientes com doenças cardiovasculares, mas destaca que não é apenas se exercitar, e sim como se exercitar, que faz diferença.