A possível composição entre o governador Otaviano Pivetta (Republicanos) e a deputada estadual Janaina Riva (MDB), caso ela desista da pré-candidatura ao Senado para disputar a vice-governadoria, tem potencial para provocar desdobramentos imprevisíveis nestas eleições e no cenário político dos próximos anos.
Se, por um lado, a aliança ampliaria o alcance eleitoral da chapa governista, por outro abriria uma série de questionamentos políticos que vão muito além da disputa deste ano.
A possibilidade tem sido cada vez mais alvo de especulações nos bastidores, que indicam o avanço das tratativas e uma possível definição nesta semana.
Do ponto de vista eleitoral, decididamente, Janaina agregaria peso à candidatura de Pivetta. Trata-se de uma das parlamentares mais votadas e conhecidas do Estado, com forte presença no interior e em segmentos organizados.
Ao longo dos últimos anos, consolidou sua imagem como defensora dos servidores públicos e das pautas ligadas às mulheres, construindo uma identidade própria que extrapola os limites do MDB.
Sua entrada na chapa também poderia reduzir resistências em regiões onde Pivetta ainda busca ampliar sua presença política, além de fortalecer o discurso de renovação com uma composição que reúne experiência administrativa, de um, e densidade eleitoral, de outra.
Outro fator é que a dobradinha com Pivetta reduziria, em muito, a força eleitoral de Wellington Fagundes (PL), candidato ao Governo e sogro de Janaina. "Se nem a nora o apoia, quem dirá outros", poderiam dizer...
Mas, assim como as vantagens, há os obstáculos.
O primeiro deles é político. Janaina passou boa parte dos últimos anos fazendo oposição contundente ao Governo Mauro Mendes, criticando a condução administrativa, confrontando secretários e protagonizando embates públicos com o Palácio Paiaguás.
O próprio Mendes afirmou recentemente que a deputada “se comporta como oposição” e condicionou qualquer aproximação a uma mudança de postura.
Essa trajetória levanta uma pergunta inevitável: até que ponto a base governista aceitaria dividir o mesmo palanque com quem, até ontem, era uma das principais críticas do governo?
A resistência não estaria apenas na militância ou nos partidos aliados. Integrantes do núcleo político de Mendes poderiam enxergar a composição como uma concessão excessiva, capaz de gerar desgastes internos justamente no momento em que o grupo tenta transmitir unidade.
E a história política de Mato Grosso está aí para mostrar que nem sempre o eleitor engole as articulações e decisões da cúpula política.
Há ainda um componente simbólico que, inevitavelmente, reapareceria durante a campanha: Janaina é filha do ex-presidente da Assembleia Legislativa, José Riva, condenado em diversos processos relacionados a esquemas de corrupção.
Embora a deputada tenha construído carreira própria, com independência e, muitas vezes, fazendo embates com o próprio pai, adversários dificilmente deixariam de explorar essa associação durante a disputa.
Fator 2030
Outra questão que necessariamente sofrerá impacto com a eventual chapa Pivetta e Janaina será o horizonte da disputa de 2030.
Caso Pivetta seja reeleito governador e conclua um mandato bem avaliado, a vice-governadora naturalmente despontaria como uma das principais candidatas à sucessão. Se reeleito, Janaina não será uma vice figurativa, sem expressividade. Muito pelo contrário, saberá ocupar espaços e ampliar sua atuação.
Nesse cenário, Janaina chegaria extremamente fortalecida, ocupando posição privilegiada na disputa daqui a quatro anos.
É justamente aí que reside um dos dilemas estratégicos do grupo liderado por Mauro Mendes. Ao abrir espaço para Janaína, hoje, o grupo estaria consciente e majoritariamente disposto a dar musculatura a Janaina ao longo dos próximos quatro anos?
Essa é uma pergunta que dificilmente pode ser respondida apenas com cálculos eleitorais de curto prazo.
No fim das contas, a eventual composição entre Pivetta e Janaina deixaria de ser apenas uma negociação para estas eleições. Ela redefiniria o equilíbrio de forças dentro do grupo governista, poderia alterar os rumos da sucessão estadual e reorganizar parte do tabuleiro político de Mato Grosso.
É justamente essa dimensão que transforma uma simples composição eleitoral em um dos movimentos mais delicados e imprevisíveis do atual xadrez político mato-grossense.